20 de janeiro de 2016

Cabo Verde | Santo Antão - Diário de Viagem #5


A frase que me acompanhou todos estes anos quando me lembrava de Santo Antão: "Carina, olha para a frente, não se vê nada, só mar e nuvens. Nós estamos no fim do mundo, aqui é onde a terra acaba". Foi isto que um tio me disse quando chegámos ao topo de uma montanha em Santo Antão, disse que ali era o mais longe que podíamos chegar, que não havia mais terra para além daquela que estávamos a pisar. Fiquei fascinada, senti um poder dentro de mim difícil de explicar. Eu, Carina, tinha chegado ao fim do mundo. Sei que, muito provavelmente, não chegámos ao fim do mundo e que se navegasse por aquele oceano havia de encontrar terra. Mas, por vezes, é bom imaginar, deixarmo-nos levar, acreditar mesmo que a verdade não seja aquela.


Estava combinado que quarta-feira seria o dia para visitar Santo Antão, a ilha dos meus antepassados, aquela que é conhecida como a Ilha Esmeralda, de tão verde que é, a mais verde das 10 ilhas que compõem Cabo Verde. Estava entusiasmada e nervosa. É que a minha primeira viagem até Santo Antão não correu lá muito bem. O barco era outro - menos moderno -, o mar estava bravo, o barco balançava em ângulos inimagináveis e, claro, o pior aconteceu. Alguém, do primeiro andar do barco, vomitou para o andar de baixo. Digamos que eu estava no local errado à hora errada.


Já previa muito vento durante aquela hora de viagem e mais uns quantos balanços. Mas afinal o mar não estava assim tão furioso e os balanços, foram balancinhos. O vento, esse chato, não nos deu tréguas. Mas entre ficar dentro do barco, sentadinha a ver TV, ou gravar na minha memória vistas magnificas, mesmo ficando com a cara e cabelo cheios de sal, prefiro a segunda hipótese.


Como ir para Santo Antão? Fácil. Fomos até ao Porto Grande, o porto da cidade de Mindelo, e comprámos uma viagem de ida e volta por 1620 escudos (14€) por pessoa. A viagem é feita no barco Mar d' Canal, nome do mar que separa as duas ilhas, e tem a duração de 1 hora. Fomos no barco das 8h00 mas convém estar dentro do porto, prontos para embarcar, 30 minutos antes. São distribuídos pelos passageiros saquinhos para quem se sentir mal-disposto - thank God. Voltámos no barco das 17h00 mas não vos aconselho a voltarem no mesmo dia. É uma heresia não conhecer a ilha de Santo Antão por completo. No mínimo, fiquem lá 3 dias e permitam-se ter uma das melhores experiências das vossas vidas. Quando lá estive em 2002 e fiz uma visita completa à ilha, foi espectacular!


E voltando à viagem de barco, foi tranquila dentro do que se espera daquele mar. Vimos poucos 'carneirinhos' - expressão cabo-verdiana que designa as pequenas ondulações brancas que vemos quando o mar está revolto. Fomos acompanhados de uma tia e um tio. Dos mais divertidos que se pode pedir. E eu não pedi, calharam-me e eu só tenho a agradecer ao destino. Quase à chegada de Porto Novo, cidade principal de Santo Antão, comecei a ver os pequenos barcos, casas típicas, outras recém-construídas e, de repente, salta-me à vista o novo porto de Porto Novo. Uma construção digna de aplausos! Super moderna e com as estruturas de apoio que um porto precisa. É que nem São Vicente tem um assim.


O meu tio apressou-se a sair do barco e disse "Vou fotografar-vos a descer as escadas como se fossem estrelas de cinema". Fartei-me de rir! Até acho que umas quantas pessoas acharam que éramos mesmo conhecidos, tal não foi o frenesim do meu tio a tirar fotos e nós a acenarmos. E de lá, fomos ter com o taxista com quem os meus tios acordaram o valor de 6.000 escudos (55€) para darmos um passeio de 1 dia pela ilha, com 4 passageiros e já com combustível incluído. É que sai muito mais barato 'alugar' um táxi do que um carro. Também havia a hipótese de termos levado carro dentro do ferry-boat mas é preciso ter um condutor muito experiente para conduzir naquela ilha. Os caminhos são sinuosos e perigosos, convém saber por onde se anda e os truques daquelas estradas.


Bem, e por isso mesmo, quando vimos o carro não queríamos acreditar: primeiro, nem por acaso, era um Toyota Carina e, segundo, estava nas últimas. Será que era um aviso do destino?! Mal arrancou, um pneu rebentou. Mas como ainda íamos tomar o pequeno-almoço na casa de uma tia minha em Porto Novo - de onde se avista a linda ilha de São Vicente -, o senhor teve tempo de ir trocar o pneu. E eu que andava a aguar por um cuscuz desde que tinha chegado a Cabo Verde, foi precisamente nessa altura que me desforrei! E eis que começou a aventura, entrámos no Toyota Carina e lá fomos nós aos solavancos e a rezar para que tudo desse certo, é que ainda íamos subir bastante. Eu até me questionei se estávamos a fazer a coisa certa e se não devíamos desistir do acordo com o taxista. Mas o meu tio, um excelente técnico de máquinas, disse que tinha tudo controlado. Se o tio diz, eu acredito.


Partimos do Porto Novo e fomos pela parte interior de Santo Antão, sempre a subir. Quando se começa a subir, só se vê solo árido e mal sabemos o que nos espera lá em cima - uma imensidão de paisagens verdejantes! E, nesta primeira grande subida, o carro 'engasgou-se' e começou a deitar fumo preto. Já não podíamos desistir, parámos para o carro descansar e o meu tio apressou-se colocar dois calhaus nos pneus de trás, não fosse o carro resolver descer sozinho. E foi ele que ajudou o carro a pegar. E lá continuámos viagem, passámos pelo Delgadinho, Corda, Ribeira Grande, Paul (onde parámos para almoçar algo improvisado), Ponta de Sol, entre outros tantos sítios onde me fui perdendo através de tudo o que via. Mas como foi uma visita-relâmpago faltou rever muita coisa, incluído Ribeira das Patas, Ribeira da Cruz, Tabuga.




E na Ribeira Grande parámos no Pedracin Village Hotel e fomos ao bar do hotel beber um ponche cabo-verdiano, talvez para nos esquecermos que estávamos em modo kamikaze ao termos deliberadamente escolhido entrar naquele carro. Este hotel é bom para quem se quer hospedar em Santo Antão com um ambiente muito tranquilo, rodeado de montanhas, estando a sua construção em plena comunhão com a Natureza.


Lembro-me do vento que senti na cara enquanto percorríamos aquelas montanhas de carro, o vento nos meus cabelos, na minha pele. Tenho tão presente essa sensação. Pensei tanto durante este passeio, principalmente por estar a ganhar plena noção de onde a minha mãe cresceu, de onde os meus avós e bisavós, trisavós nasceram e faleceram. Onde a vida acontecia. Onde a vida aconteceu. Que não nasci lá mas a minha história passa por lá também. Pensei tanto enquanto me deliciava com a simplicidade que me rodeava, uma simplicidade esmagadora. O tempo tem tempo e dá tempo para tudo. E entre um pensamento e outro víamos a nova vaga de turistas a subir pelas montanhas a pé e outros em excursões em mini-autocarros. Todos boquiabertos. Ninguém fica indiferente àquela ilha.


Se alguma vez forem a São Vicente, livrem-se de não ir a Santo Antão. Está tão perto, é uma oportunidade única de ter uma experiência totalmente diferente em Cabo Verde. E quando estamos lá no alto das montanhas, a curtir um friozinho ao de leve, é tudo tão fantástico que nem percebemos muito bem como é que é possível a Natureza ser assim, tão imponente, perigosa e bela ao mesmo tempo. Há locais assustadoramente lindos e altos!


A geografia de Santo Antão é de uma beleza inigualável. Trabalho árduo de vários séculos traduzem-se naquelas estradas que hoje a ilha tem. Muitas delas começadas com explosivos para abrir caminho, de tão densa que era e é a montanha. Nem imaginam o orgulho que sinto em saber que os meus antepassados estiveram envolvidos na construção das primeiras estradas desta ilha. E a ilha Esmeralda, tem um micro-clima que mais nenhuma outra ilha de Cabo Verde tem. É um pedacinho de ar fresco e puro no meio do Oceano Atlântico.


E embora a Morabeza cabo-verdiana seja irrepreensível em São Vicente, posso dizer que Santo Antão está num patamar acima. As pessoas são ainda mais abertas e afáveis, principalmente nas zonas rurais ou com menos movimento. As pessoas ainda são muito genuínas, querem e gostam de receber bem, mesmo que sejam desconhecidos que apenas passam por ali. E o receber bem, implica sempre dar comidinha ou algo do género. Por isso, estejam disponíveis para se darem com as pessoas. E provavelmente quando derem por vocês já estão sentados à mesa na casa de alguém.


E pronto, como às 16h30 tínhamos de estar no porto voltámos mas com muita vontade de continuar a percorrer aquela ilha. Devo dizer que, para estar aqui a escrever, é porque cheguei inteirinha e, apesar de todos os pesares, o taxista era bom condutor. E por ter-se bastante em conta e valorizar o seu trabalho, quando chegámos ao Porto Novo, o nosso mais novo amigo pediu-nos 8.000 escudos. Mas não era 6.000? Pois é, mas como nestas coisas temos que ser flexíveis para todos ficarem felizes e satisfeitos, demos 7.000 escudos. 


Mais uma vez, deixei um bocadinho de mim em Santo Antão, terra onde tenho parte de mim, da minha origem. Tenho um amor enorme por aquela terra, um sentimento de protecção muito grande. E sei que sou fruto de injustiças sociais de uma época passada mas, no fim das contas, é também essa a razão pela qual a maioria de nós existe. Somos consequência do passado, seja ele bom ou mau. E essa origem cabo-verdiana vem de escravos africanos que foram levados para estas ilhas, na altura desertas, e de europeus que por lá se instalaram e exploraram terras e gentes. Não tenho orgulho nisso mas tenho orgulho em saber de onde venho e, de alguma maneira, poder aclamar por justiça, sendo o melhor ser humano possível através de acções diárias, talvez quase imperceptíveis, mas que acredito que farão a diferença no dia de alguém. O passado não serve só para ser recordado mas para sermos melhores no futuro.


O diário de viagem #6 mostrará uma caminhada matinal até à Laginha, uma mini road trip pela ilha de São Vicente e um jantar na Chez Loutcha - sem contar que depois disto ainda fomos a um aniversário! Eu sei, esgotante. Mas tão bom.


DIÁRIO DE VIAGEM COMPLETO


Viagem: Março 2015

1 comentário:

  1. Meu Deus, Carina! Que viagem e que imagens maravilhosas!
    Mas, melhor ainda são as palavras com as quais são descritas
    a terra e as gentes.

    Adorei. Beijinhos
    :)

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