25 de outubro de 2016

Cabo Verde | São Vicente - Diário de Viagem #6

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

E este foi daqueles dias em que fizemos e vimos tanta coisa que nos custou reter toda a informação visual que nos foi presenteada. E não trocava a experiência por nada. Logo de manhã, estava combinado uma caminhada, em género de exercício, com uma das minhas tias. O percurso seria de Monte Sossego à Laginha. Já sabia que ela é muito activa, faz estas caminhadas praticamente todos os dias, terminando com um mergulho na Laginha. Pensei eu que, no auge da minha juventude, era canja acompanhar a minha tia. Não podia estar mais errada. Bastava olhar para trás, coçar um pé ou dar um ai que já a perdia de vista. Lá tinha eu de dar uma corridinha para apanhá-la de novo. A minha expressão de perplexidade era bastante visível. Cheguei à fácil conclusão de que estou mesmo em baixo de forma. A partir daquele dia a minha tia, com 73 anos, passou só a ser o meu modelo de vitalidade e energia.



Tive a brilhante ideia de voltarmos de táxi para casa! Claro, com a desculpa de que combinei com o meu primo encontrarmo-nos lá às 10h00. Mas vá, não foi desculpa, combinámos mesmo e já estávamos em cima da hora. Ele chegou, saltámos para dentro do carro e 'bora lá subir montanhas e ver outros locais. Primeiro fomos a Ribeira de Julião, uma zona residencial e que está em constante crescimento no que toca à construção de casas e urbanização. Confesso que não é dos meus locais preferidos mas é sempre bom dar uma olhadela e ver o desenvolvimento das coisas. A seguir fomos até ao Monte Verde! Nunca tinha ido lá acima. As vistas que temos ao subir são tão lindas! Perspectivas diferentes de cada ponto de São Vicente. E o dia não era dos melhores pois estava enevoado. Dizem que quando o céu está limpo e tudo à volta está um bocadinho mais verde, é de levarmos as mãos à cabeça. E se assim já fiquei totalmente vidrada com a paisagem, imagino se o dia estivesse limpo. Houve partes do caminho em que só pensava o quão lunar parecia aquela paisagem. E conseguir ver a Baía das Gatas, a Praia Grande, Mindelo lá de cima. Sei lá, indescritível. E se um dia lá forem, vale saber que faz um pouco de frio mas nada que não se aguente.


E descemos. Próxima paragem? Salamansa! Não tinha tido a oportunidade de visitar esta vila em 2002. Fiquei impressionada com a beleza. As cores. As pessoas. O mar. E o que vou dizer pode soar estranho mas vou tentar explicar. Eu olhava para as pessoas e parecia que eram de Santo Antão. Não que as pessoas em São Vicente e Santo Antão sejam muito diferentes. Mas...são traços quase imperceptíveis, particularidades da fisionomia e traços faciais que me remetem logo às pessoas de Santo Antão. E outras características, fora da fisionomia, tal como a forma como as senhoras mais velhas tinham o lenço amarrado à cabeça. Não consigo explicar melhor que isto mas, afinal, eu estava certa. Não sabia nada da história daquela vila e, quando menos espero, o meu primo começou a explicar como tinha nascido aquela pequena povoação. 


Esta povoação foi formada por pescadores vindos de Santo Antão. Esta parte da ilha de São Vicente está virada para Ponta de Sol, uma vila de Santo Antão. Muitos vieram em busca de uma vida melhor em São Vicente. Outros dizem que a bravura do mar levou-os até lá, o que é bastante possível quando aquele mar se enche de 'raiva'. Perder a direcção e ser levado para outras costas não é algo difícil de acontecer. A maioria não voltou para trás. Ficou, tentou encontrar uma vida com melhores condições em São Vicente e as famílias foram, gradualmente, para lá também. Neste momento residem ali cerca de 2 mil pessoas.


Conversa puxa conversa, o meu primo pergunta: "Já foram a Lazareto?". E em uníssono dissemos que não. Outra paragem acrescentada de última hora ao passeio. Mas como tínhamos obrigatoriamente de passar por Mindelo para ir até Lazareto, por que não parar no bar Caravela na Laginha e beber qualquer coisa?! Claro que sim! Mas obviamente que eu, como de vez em quando me custa a aprender, pedi um café. O Helder olhou para mim com aquele ar de 'Outra vez?'. Parece que ainda não me tinha tocado que existia um mar de opções a serem experimentadas. O meu primo disse "Não, não, não. Estás em São Vicente, vais beber uma Strela Kriola bem fresquinha!". Olhem bem o que me foram mostrar, já não quis outra coisa até voltar para Portugal. Após esta pausa, seguimos para Lazareto. 


Lazareto, uma zona residencial com o privilégio de ter aquele mar lindo à frente, tem uma vista deslumbrante sobre a baía de Mindelo. Aqui têm sido construídas muitas moradias e prédios, género condomínios. Muitos emigrantes cabo-verdianos, tal como na Baía das Gatas, decidiram construir aqui as suas casas para quando vêm de férias à sua terra. Acho que isto é transversal a todos os emigrantes seja que de terra forem. O objectivo é juntar o máximo possível e ter algo a que podem chamar de seu quando voltarem para a sua terra natal. E não são casinhas, são casarões. Uma nota importante, em Lazareto estamos tão perto do Monte Cara que parece que lhe podemos tocar.


Após um almoço dos Deuses - sim, isto tudo foi numa manhã - fomos dar uma volta sozinhos por Mindelo. Até agora levavam-nos sempre para todo o lado. Decidimos ser altamente radicais e ir por nós mesmos! Passeámos, fiz uma comprinhas e quando voltávamos para casa ouvimos uma buzina. Era uma prima minha! Pronto, não voltámos sozinhos como planeado mas não nos importámos, as boleias da família eram sempre bem-vindas, sentiamo-nos muito bem com todos eles.


Conseguimos repousar 30 minutos e começámos a arranjar-nos para um jantar na Chez Loutcha a convite de familiares. Tinha aqui um problemão em mãos. Havia a festa de aniversário da minha prima - a que nos deu boleia - e este jantar que já tinha aceitado o convite. Houve ali uma pequena disputa até que dissemos "Nós vamos a todo o lado, não há problema. Jantamos e depois vamos para o outro jantar". Isto de comer duplamente a mesma refeição passou a ser o pão nosso de cada dia. Literalmente. As fotos do jantar não ficaram com qualidade mas, pronto, vou deixar passar duas.


Antes de irmos para o restaurante, os meus tios levaram-nos a Lazareto para mostrar a sua casa. Do terraço, à noite, vêm-se as luzinhas todas da cidade de Mindelo! Lindo! Já no restaurante, foi tudo muito agradável e ainda houve música cabo-verdiana e dança ao vivo. Comemos, conversámos, os meus tios contaram-me histórias antigas de como se conheceram, como emigraram para a Holanda e moram lá até aos dias de hoje. E no fim, o meu tio ainda foi dar um pézinho de dança. Acabado o jantar, toca de ir para a festa de aniversário. Não voltei a jantar mas comi bolo de anos. E claro, a música de parabéns foi acompanhada ao violão, não estivéssemos nós em Cabo Verde.


O diário de viagem #7 mostra o dia mais tranquilo que tivemos lá, no sentido de ter tido tempo para simplesmente parar e reter tudo.


Viagem: Março 2015

1 comentário:

  1. Ai, Cabo Verde, terra "sabe"!
    Maravilhosas paisagens e um texto excelente.
    Dá mesmo vontade de pegar num saquinho de viagem e...ala que se faz tarde :)

    Beijinhos

    Olinda

    ResponderEliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...